Recentemente, um guia e entusiasta da observação de pássaros avistou um raro falcão de Buckley no Brasil. Foi a primeira vez que essa ave foi vista em terras verde-e-amarelas, e o responsável pelo feito sentiu-se realizado e recompensado. Muito embora a grande maioria das pessoas não tenha se impressionado – para elas era “só mais um pássaro” – a descoberta teve um valor inestimável para quem a conseguiu. O ornitólogo pode não saber, mas ele é – assim como milhões de brasileiros – um colecionador.

Esse jovem guia coleciona avistamento de pássaros, e o raro falcão é, para ele, uma figurinha rara. Se colecionasse selos ou adesivos, seria um Olho-de-Boi. Se colecionasse livros, seria uma primeira edição da Divina Comédia. Mas, independentemente do tema, o que está por trás do prazer de colecionar? E por que tanta gente se dedica a esta atividade? Há explicações científicas para ambos os fatos, no que se convencionou chamar de ‘espírito colecionador’.




É fácil perceber esse espírito colecionador do ser humano nas famosas raspadinhas , uma experiência que hoje em dia está disponível também em plataformas eletrônicas. As duas versões – física e digital – envolvem uma satisfação subconsciente de encontrar e juntar símbolos iguais, ou de alguma forma relacionados. Isso é explicado pela neurociência, que em diversos estudos comprova que nosso cérebro está constantemente buscando por padrões. E faz isso como uma forma de organizar o caos de informações que chegam até ele, classificando-as de uma forma que seja possível compreender e usar.

Em resumo: o cérebro é um colecionador. Ele pega todas as informações que recebe, separa, classifica e arquiva, de modo que faça sentido – e possa ser buscado com facilidade sempre que precisar.  Essa indexação (ou coleção) permite que nossa mente construa significado para pensamentos abstratos, como já demonstraram algumas pesquisas.

O prazer de colecionar está, portanto, intimamente ligado com a própria evolução de nossa espécie. E ao conseguir selecionar, classificar e colocar os elementos em uma ordem lógica, o cérebro se ‘presenteia’ com uma satisfação – normalmente uma descarga de serotonina, conhecida como o hormônio da felicidade. Mas ele faz isso milhões de vezes ao dia, então o efeito é pouco percebido. Aliás, é mais notado quando o inverso acontece: o cérebro não consegue catalogar uma informação, o que cria um estresse, uma angústia ou uma frustração.




Colecionar – selos, livros, figurinhas ou raspadinhas – é uma forma de induzir seu cérebro a essa satisfação primitiva. Se a coleção é aberta – como a filatelia – traz a vantagem de se poder adicionar frequentemente novos elementos ao grupo, criando repetidas satisfações. Mas se a coleção é fechada – como um álbum de figurinhas – a satisfação vem em conseguir todos os elementos. E aqui há subtarefas igualmente prazerosas como completar a página, ou completar uma seção (ou capítulo ou time – típico de álbuns de campeonatos de futebol).

Nesse ponto, você pode estar convencido que colecionar é uma coisa boa. E estará correto – na maioria das vezes. O ato de colecionar só é criticável quando se torna uma obsessão – o que às vezes isso acontece. Levado ao extremo, o prazer de adquirir ou possuir um item colecionável pode causar comportamentos compulsivos e/ou destrutivos. Esse aspecto já foi explorado em diversos filmes do cinema, sendo um dos mais famosos o sombrio “O silêncio dos inocentes”.

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Mas, afora as raras exceções, colecionar é um hábito perfeitamente saudável, que pode geral um senso de organização e método ligados a uma saborosa sensação de prazer. Portanto, se você gosta de selos, figurinhas, tampinhas de garrafa, bolachas de chopp, papel carta, discos de vinil, histórias em quadrinhos, imãs de geladeira, canecas de café, bonecos de super-heróis, cartões postais, carros antigos ou patinhos de borracha, não se preocupe. Não há nada errado com sua cabeça. Você é apenas um ser humano.