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Projeto A119: o curioso plano que visava detonar bombas atômicas na Lua

Projeto A119: o curioso plano que visava detonar bombas atômicas na Lua

Muito antes do então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, fazer um discurso inspirador dizendo que os Estados Unidos iriam à Lua, a Força Aérea dos Estados Unidos já havia tomado uma decisão com relação a uma certa “visita” ao satélite natural do nosso planeta. No entanto, existia uma grande diferença entre os objetivos de ambos os projetos.

Enquanto o presidente Kennedy imaginava os astronautas americanos andando na superfície lunar, os figurões da Força Aérea dos Estados Unidos fantasiavam uma grande nuvem em forma de cogumelo, o que provocaria medo nos corações de todas as outras nações e inspiraria admiração pelo poder tecnológico e militar dos EUA. Basicamente, os militares visavam detonar bombas atômicas na Lua, o que deu origem a um dos episódios mais bizarros da exploração lunar americana.

Ficou curioso para saber o início e o desenrolar dessa história? Pois bem, ao longo desse post, nós vamos examinar o Projeto A119, o ambicioso plano dos americanos de demonstrar a superioridade tecnológica dos Estados Unidos em relação à União Soviética e ao restante do mundo.

A complexa corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética

Em 1957, a União Soviética surpreendeu o mundo ao colocar em órbita o primeiro satélite artificial da história, o Sputnik, em um momento em que os engenheiros espaciais dos EUA ainda estavam descobrindo as complexidades dos seus sistemas de lançamento. De fato, nas primeiras tentativas dos americanos, os foguetes apresentaram vários problemas ainda na plataforma de lançamento (algumas vezes causando até explosões), de modo que tais fracassos passaram a ser amplamente ridicularizados na imprensa.

O sucesso dos soviéticos e o fracasso dos americanos foram desmoralizadores não só para aqueles que trabalhavam no programa espacial dos EUA, mas também para toda a nação. Com o Sputnik, os soviéticos demonstraram que tinham a tecnologia certa para atacar qualquer lugar da Terra com um míssil nuclear, e da maneira como as coisas estavam indo para os americanos, grande parte do mundo assumiu que os soviéticos poderiam até lançar uma arma nuclear no Reino Unido sem que Estados Unidos pudessem responder o ataque.

Quase quatro meses depois do lançamento do Sputnik, os EUA finalmente conseguiam lançar o seu primeiro satélite, o Explorer 1. O lançamento foi muito comemorado e o satélite pesava apenas 14 kg, enquanto que o Sputnik pesava 83,6 kg. No entanto, os foguetes soviéticos tornavam-se progressivamente mais poderosos a cada lançamento, assim como sua carga útil. Em maio de 1958, a União Soviética já havia lançado o seu terceiro satélite no espaço (o Sputnik 3), um gigantesco laboratório científico flutuante, com três metros de altura e 1,3 tonelada de peso.

A ideia inusitada

Como você já deve ter percebido, os soviéticos estavam claramente à frente na corrida espacial, obrigando os EUA a buscarem desesperadamente algo capaz de aumentar a sua confiança. Então, os americanos se voltaram para o que eles sabiam fazer muito bem: construir armas nucleares. Na verdade, os americanos provavelmente se perguntaram: por que não enviar uma bomba atômica à Lua e detoná-la para todo o mundo ver? E foi assim que nasceu o Projeto A119, alimentando a crença yankee de que um evento desse tipo seria tão espetacular que colocaria a América de volta no jogo.

Imediatamente, uma equipe de físicos e cientistas se reuniu para estudar o grau de visibilidade da explosão que poderia ser vista da Terra, sendo que esse era o objetivo número um. Já a outra parte do estudo buscava saber se a tal explosão poderia ser prejudicial ao ambiente lunar. Após várias análises, decidiu-se que o dispositivo teria que ser explodido na região do crepúsculo para que a nuvem de poeira resultante da explosão fosse iluminada pelo sol, tornando-a visível da Terra.

Um dos astrofísicos mais conhecidos da história, Carl Sagan, que era até então um estudante cursando o doutorado e trabalhando sob a tutela do astrônomo Gerard Kuiper, também estava na equipe. De fato, foi ele quem recebeu a missão de criar um modelo matemático da expansão da nuvem de poeira ao redor da lua.

O abandono do projeto

Inicialmente, uma bomba de hidrogênio chegou a ser considerada, mas acabou sendo ignorada nos primeiros estágios das análises por conta do fato de que os cientistas acreditavam que ela seria muito pesada para uma longa viagem de 384.400 km até a Lua. Em vez disso, um dispositivo menor e com um rendimento relativamente baixo de 1,7 quiloton foi escolhido. Em efeito de comparação, a bomba Little Boy, que havia sido lançada na cidade japonesa de Hiroshima em 1945, tinha um rendimento de 13 a 18 quilotons.

O trabalho dos cientistas espaciais no Projeto A119 continuou até meados de janeiro de 1959, quando o plano foi abandonado repentinamente. Então, o projeto A119 foi arquivado e todos os participantes juraram sigilo. Por causa disso, a existência do Projeto A119 permaneceu totalmente em segredo até meados da década de 1990, quando o escritor Keay Davidson descobriu a história enquanto pesquisava sobre a vida de Carl Sagan para fazer uma biografia do cientista.

Sagan aparentemente havia fornecido detalhes minuciosos do projeto, pelo qual ele foi posteriormente acusado de violação da segurança nacional quando se candidatou a uma bolsa acadêmica na Universidade da Califórnia em 1959.

As reações nos anos seguintes

Mais detalhes sobre o projeto surgiram em 2000, quando o físico Leonard Reiffel, que havia liderado o estudo, resolveu quebrar o seu anonimato ao falar à imprensa sobre os bastidores do curioso plano americano.

“O projeto nunca chegou ao ponto de planejamento operacional”, disse Reiffel em entrevista ao NY Times. “Mostramos quais eram os principais defeitos. Mas o argumento real que usamos era que não havia sentido em arruinar o ambiente intocado da lua. Havia outras maneiras de impressionar o público e não estaríamos prestes a ser subjugados pelos russos. Felizmente, o pensamento mudou”.

O Dr. David Lowry, um historiador nuclear britânico, tornou-se um dos maiores críticos ao projeto por conta das suas declarações fortes. Segundo Lowry, se os americanos tivessem seguido em frente com o projeto, nunca teríamos a imagem romântica de Neil Armstrong dando “um passo gigantesco para a humanidade”. O que teríamos seria a imagem de um país capaz de fazer coisas absurdas em nome de uma suposta supremacia política, militar e tecnológica.

Um projeto bem curioso, não é mesmo? Compartilhe o post e deixe o seu comentário!

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